Um desafio de interpretação sui generis

 | Casos de sucesso

Estamos em Agosto de 2018 e 37 000 peregrinos católicos de 114 países chegaram a Dublin para participar no Congresso Pastoral do Encontro Mundial das Famílias (WMOF). Em oferta está um programa de 76 workshops em nove salas, incluindo 60 salas com interpretação simultânea. Graças a Alexandra Hambling, membro da Calliope para a Irlanda, vão poder beneficiar de uma tradução de primeira qualidade durante os debates sobre uma variedade de questões teológicas, sendo que o planeamento minucioso e o recrutamento à medida garantiram a otimização de um orçamento apertado.

 

Nesta entrevista, Alexandra Hambling fala das questões envolvidas e de como implementou uma solução pensada à medida das necessidades.  

 

A sala de conferências onde os intérpretes de Calliope ajudaram no Congresso Mundial das Famílias

Alexandra, descreva a natureza do desafio que este evento representou para o seu cliente.

O cliente queria ter um serviço de interpretação em quarto línguas (inglês, francês, espanhol e italiano) para um grande número de workshops, sendo que nove deles chegariam a ter lugar ao mesmo tempo e cada um com diferentes requisitos de interpretação. Esta situação, já de por si complexa, tornou-se mais desafiante ainda devido à escala do evento e ao número de participantes, o que chamou uma solução técnica inovadora. Não é possível distribuir diariamente e recolher 37 000 receptores para recargar durante a noite! O orçamento também foi um fator importante. A Igreja católica está habituada a recorrer a intérpretes voluntários, mas desta vez –tendo em conta o perfil do evento– optou por intérpretes de conferência profissionais, ainda que no âmbito do seu orçamento.

 

O que a levou a ser escolhida para fornecer esta solução?

Ganhei o contrato depois de um concurso público que começou em 2015. Creio que na decisão dos organizadores foram cruciais três fatores. Em primeiro lugar, sou intérprete-consultora, e não apenas gestora, o que significa que tenho um profundo e verdadeiro conhecimento de como funcionam as equipas de interpretação multilingue e de como as constituir. Em segundo lugar, muitos dos temas na agenda do WMOF eram de natureza teológica e entre os oradores estavam bispos, arcebispos e cardeais. Entendi, pois, imediatamente que os intérpretes tinham de ter uma bagagem católica para se poderem identificar com os temas e entendê-los. Não é frequente as aulas de catequese serem uma condição prévia para interpretar numa conferência! Mas neste caso, era precisamente este o conhecimento que os intérpretes deviam resgatar.

Em terceiro lugar, devido à natureza do tema, quis também que todos os intérpretes trabalhassem para a sua língua materna e que não houvesse relé. Mesmo com um conhecimento exímio de outra língua, nada garantia que saberiam o “Pai Nosso” e outras rezas da Eucaristia noutra língua. Não usar as fórmulas certas e não as ter na ponta da língua levaria a perder a confiança dos ouvintes.

 

Como abordou este desafio?

Trabalho como intérprete-consultora há cerca de 15 anos e acumulei uma experiência de grande peso na organização de eventos de diversos tipos e configurações. Contudo, cada evento é único e o meu objetivo é o de providenciar a solução mais adequada tendo em conta os requisitos do cliente e os constrangimentos logísticos.

A minha abordagem foi simples: otimização orçamental sem comprometer a qualidade. Para tal, contratei um misto de intérpretes da Irlanda que trouxeram um conhecimento de sotaques locais, nomes de lugares e contexto, de Espanha e outros países europeus com experiência em eventos religiosos, e de Roma com grande conhecimento do Vaticano. Na sua grande maioria, o trabalho de interpretação foi do inglês para as outras línguas, mas houve várias sessões em que também foi necessário ter interpretação para o inglês. A estratégia nestes casos consistiu em contratar intérpretes que trabalhassem em ambos os sentidos, evitando assim a contratação de intérpretes adicionais de cabina inglesa para estas sessões de curta duração.

 

Qual foi a solução final e como a implementou?

Recrutei uma equipa de 35 intérpretes em que todos os membros trabalharam em várias sessões todos os dias e designei um chefe de equipa experiente para cada sessão. A cuidadosa distribuição dos intérpretes atendendo à distância entre as salas de reunião e às combinações linguísticas permitiu limitar ao máximo o número de intérpretes. A minha nota pessoal prende-se com o facto de conhecer pessoalmente os meus intérpretes e de os poder orientar para determinados temas de workshops: uma intérprete mexicana no workshop sobre a realidade mexicana, uma intérprete blogueira gastronómica num workshop com um padre-chefe de cozinha, etc.

A flexibilidade foi a palavra de ordem para poder satisfazer os pedidos de última hora com alteração do regime linguístico ou dos horários das sessões. Para garantir que tudo funcionasse pelo melhor, conduzi um extenso briefing para os intérpretes, desde como se preparar para os temas da reunião até à segurança, alojamento e organização das viagens.

Com um programa de 200 oradores, foi um desafio para os organizadores facultar aos intérpretes as notas dos oradores em cada sessão. A preparação específica dos intérpretes tornou-se, pois, um elemento-chave, apesar de todos terem uma extensa experiência em eventos católicos. Muito antes do evento, recomendei que estudassem o Amoris Laetitia (Felicidade do Amor), o documento do Papa Francisco sobre amor, casamento e vida familiar, que estaria na base dos debates. Uma das intérpretes preparou um valioso quadro de correspondência linguística nas quatro línguas e partilhou-o com a equipa, permitindo encontrar rapidamente as citações durante os discursos.

Referi a necessidade de dispor de uma solução técnica inovadora. Um facto primordial para o êxito do evento foi a ligação com os técnicos de som, responsáveis pelo equipamento. A autoridade irlandesa de radiodifusão, a Broadcasting Authority of Ireland, atribui 14 frequências de rádio para toda a duração da conferência, cada uma correspondendo à transmissão de uma língua a partir de determinada sala. Os peregrinos ouviram assim a interpretação através de pequenos receptores de rádio.

 

Na perspectiva do seu cliente, qual foi a mais-valia do seu trabalho?

Antes de mais, os peregrinos ouviram uma interpretação rigorosa e de alta qualidade porque os meus intérpretes eram todos intérpretes de conferência profissionais e experientes nos temas religiosos e trabalharam para a sua língua materna, sem uso de relé.

Em segundo lugar, a constituição cuidadosa e a flexibilidade integrada da equipa de interpretação garantiram ao cliente uma boa relação qualidade/preço e a otimização do orçamento.

Em terceiro lugar, a parte logística correu bem graças ao planeamento rigoroso e à atenção ao pormenor. Para lhe dar um exemplo, durante o fim de semana que antecedeu o evento, fiz pessoalmente o percurso de autocarro a partir do hotel dos intérpretes até ao local do evento para verificar as zonas de acesso e medidas de segurança e cheguei a perguntar ao motorista quais eram as expectativas em relação ao tráfego.

Esta atenção ao pormenor leva tempo, mas é o que faz a diferença. Tal como qualquer outro membro da Calliope, presto serviços de interpretação personalizados, planeados com rigor e pensados à medida.  

Parabéns, Alexandra!

 

Alexandra vivenciou um final inesperado durante essa mesma semana quando também foi contratada para interpretar para o Papa e os 80 000 espectadores do estádio de Croke Park as palavras de uma família do Burkina Faso.

 

Calliope-Interpreters é uma rede mundial de intérpretes-consultores que, pela assessoria e experiência, garantem o êxito do seu próximo evento multilingue. Contate-nos para avaliarmos juntos as suas necessidades de interpretação.

 

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